Paixão - Hamaguchi
Os amigos de Ryusuke – Paixão, um grande filme de Hamaguchi
https://www.publico.pt/2024/05/29/culturaipsilon/critica/amigos-ryusuke-paixao-filme-hamaguchi-2092152Os amigos de Ryusuke – Paixão, um grande filme de Hamaguchi
A retrospectiva da obra de Ryusuke Hamaguchi no cinema Nimas, em Lisboa, traz como bónus a estreia comercial da segunda longa-metragem do realizador japonês. Com data de 2008 (Hamaguchi, que nasceu em 1978, tinha portanto 30 anos), Paixão é mesmo tecnicamente um “filme de escola”, feito como exercício final para a escola de cinema de Tóquio que Hamaguchi frequentava. E que filme: desde a descoberta de Hamaguchi (que em Portugal se fez pela estreia comercial de Happy Hour, em 2018) nenhum dos seus vários filmes posteriores nos provocava uma sensação comparável. Sabíamos que Hamaguchi tinha de nos voltar a encher as medidas, não sabíamos é que para isso acontecer tínhamos de olhar para trás, para o que estava antes de Happy Hour. Mais uma razão para prestar atenção à retrospectiva no Nimas. Os amigos de Ryusuke – Paixão, um grande filme de Hamaguchi
Paixão é um filme seco e bruto, ou que encontra uma forma refinada de ser seco e bruto, de onde está completamente ausente aquela tendência para o arabesco, para o efeito de assinatura de “artista”, que tem tomado os filmes mais recentes (e antes que o leitor refile: não é uma queixa, só a constatação de uma característica). Mostra um grupo de amigos que começa por estar reunido num jantar, onde um casal de entre eles anuncia ao grupo que se vai casar. Mas a revelação tem o efeito daquelas palavras mágicas ao contrário, e a partir daí tudo vai entrar em convulsão e em desagregação, entre o grupo, e especialmente entre o casal. Os amigos de Ryusuke – Paixão, um grande filme de Hamaguchi
A violência, sentimental e emocional, a violência que as pessoas infligem umas às outras no dia-a-dia, é certamente um dos temas do filme, que tem muitos momentos que lhe são completamente dedicados – mas é uma violência que ao mesmo tempo é catártica, que tem que ver com a conquista da honestidade emocional, como se a paz de cada um com os seus próprios sentimentos só se atingisse através desta violência e ela fosse em primeiro lugar dirigida a eles próprios. Não ficamos longe, em vários momentos, do “psicodrama” (do género O Amor Louco de Rivette), nem do desenho de uma intimidade ameaçada por pequenos sinais (o casal enrolado no sofá, e o plano da panela com o esparguete ao lume: a cabeça de um deles está alhures, é o que a gente ali vê, e esse plano de uma coisa tão banal é possivelmente o mais estranho plano em todo o filme).
A retrospectiva da obra de Ryusuke Hamaguchi no cinema Nimas, em Lisboa, traz como bónus a estreia comercial da segunda longa-metragem do realizador japonês. Com data de 2008 (Hamaguchi, que nasceu em 1978, tinha portanto 30 anos), Paixão é mesmo tecnicamente um “filme de escola”, feito como exercício final para a escola de cinema de Tóquio que Hamaguchi frequentava. E que filme: desde a descoberta de Hamaguchi (que em Portugal se fez pela estreia comercial de Happy Hour, em 2018) nenhum dos seus vários filmes posteriores nos provocava uma sensação comparável. Sabíamos que Hamaguchi tinha de nos voltar a encher as medidas, não sabíamos é que para isso acontecer tínhamos de olhar para trás, para o que estava antes de Happy Hour. Mais uma razão para prestar atenção à retrospectiva no Nimas. Os amigos de Ryusuke – Paixão, um grande filme de Hamaguchi
Paixão é um filme seco e bruto, ou que encontra uma forma refinada de ser seco e bruto, de onde está completamente ausente aquela tendência para o arabesco, para o efeito de assinatura de “artista”, que tem tomado os filmes mais recentes (e antes que o leitor refile: não é uma queixa, só a constatação de uma característica). Mostra um grupo de amigos que começa por estar reunido num jantar, onde um casal de entre eles anuncia ao grupo que se vai casar. Mas a revelação tem o efeito daquelas palavras mágicas ao contrário, e a partir daí tudo vai entrar em convulsão e em desagregação, entre o grupo, e especialmente entre o casal. Os amigos de Ryusuke – Paixão, um grande filme de Hamaguchi
A violência, sentimental e emocional, a violência que as pessoas infligem umas às outras no dia-a-dia, é certamente um dos temas do filme, que tem muitos momentos que lhe são completamente dedicados – mas é uma violência que ao mesmo tempo é catártica, que tem que ver com a conquista da honestidade emocional, como se a paz de cada um com os seus próprios sentimentos só se atingisse através desta violência e ela fosse em primeiro lugar dirigida a eles próprios. Não ficamos longe, em vários momentos, do “psicodrama” (do género O Amor Louco de Rivette), nem do desenho de uma intimidade ameaçada por pequenos sinais (o casal enrolado no sofá, e o plano da panela com o esparguete ao lume: a cabeça de um deles está alhures, é o que a gente ali vê, e esse plano de uma coisa tão banal é possivelmente o mais estranho plano em todo o filme).

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